Poema: Constelação no Peito Aberto


Emerson Araújo

A canção que ponho é janela aberta,
respira o mundo em sílabas de sol;
por ela entra o dia em passo lento
e o sonho aprende a não pedir licença.

Nela, o meu povo é bandeira erguida,
tingida em fogo de tom carmesim;
não pano imóvel preso ao vento cego,
mas chama viva em corpo coletivo.

Meu povo traz no rosto a fome antiga,
sede de chão, de pão, de dignidade;
carrega o peso áspero da espera
como quem guarda o grito no pulmão.

E chora lágrimas de longa estrada,
sal que desenha mapas na esperança;
cada soluço escreve na memória
o que a história tentou apagar.

Mas grita, sim, na busca de outra estrela,
não a que brilha só para poucos olhos;
procura luz que caiba em muitas mãos
e não se venda ao preço do silêncio.

A canção então se faz ferramenta,
martelo manso batendo no escuro;
abre frestas no muro do impossível
e ensina o medo a desaprender-se.

Se a noite insiste em fechar caminhos,
meu verso fica em vigília acesa:
janela aberta, povo em movimento,
estrela nova nascendo do grito.