Emerson Araújo
Dom Quixote chegou ao
sertão maranhense ao cair da noite, montado em Rocinante, magro como a lua
crescente. O calor lhe parecia um feitiço de encantadores mouros, e o chão
rachado, um mapa de batalhas antigas. Sancho dormia longe, sonhando com panelas
cheias, enquanto o cavaleiro vigiava o escuro com olhos febris. De repente,
luzes surgiram sobre o capim seco, cintilando como exércitos minúsculos e
traiçoeiros. “Vede, Rocinante!”, gritou, erguendo a lança cansada, “dragões
dourados que conspiram contra a honra!” Eram vagalumes do sertão, dançando no
silêncio, mas para ele vestiam armaduras de fogo. Dom Quixote avançou, espada
contra o vento, golpeando a noite com fé inabalável. Cada luz desviava,
zombeteira e viva, como se o mundo risse de sua bravura. O suor misturava-se ao
pó e à esperança, e o cavalo relinchava, confuso com tanta glória. Ele caiu de
joelhos, cercado de lampejos, jurando proteger donzelas que ali não estavam. Os
vagalumes pousaram em sua barba rala, coroando-o com estrelas do chão. Por um instante,
o sertão pareceu um céu, e o cavaleiro, um santo esquecido. Dom Quixote baixou a espada, comovido, sentindo que até monstros podem ser
belos. As luzes se ergueram, livres e breves, vencendo-o sem feri-lo. Quando Sancho chegou, só viu o amo sorrindo, falando de paz entre homens e
insetos. A noite seguiu quente e imensa, guardando o segredo daquela batalha. No
sertão maranhense, ecoou a lenda, de um louco que lutou contra estrelas vivas. Rocinante
bebeu água turva e descansou, como após uma guerra vencida. Dom Quixote dormiu
sob a lua aberta, sonhando com luzes que não matam. E os vagalumes continuaram
a brilhar, invencíveis, na memória do cavaleiro.
