Emerson Araújo
Mestre Hiran Silva sempre foi um gráfico de mão cheia. Daqueles que não apenas imprimem palavras, mas parecem conversar com elas antes de deixá-las repousar sobre o papel. Na pequena gráfica onde o cheiro de tinta misturava-se ao calor das máquinas antigas, ele reinava como um maestro paciente, conduzindo tipos, cores e ideias.
Quem entrava ali pela primeira vez achava que era só uma oficina barulhenta. O tec-tec das máquinas, o ranger das gavetas cheias de letras e o ventilador preguiçoso no canto. Mas bastava observar Mestre Hiran por alguns minutos para entender que havia algo diferente acontecendo. Ele pegava uma folha branca como quem recebe uma visita ilustre.
— Papel não gosta de pressa — costumava dizer, com um sorriso quieto.
E não gostava mesmo. Nas mãos dele, o papel virava convite de casamento, cartaz de festa junina, diploma escolar, santinho de procissão e até bilhete de amor de gente que não sabia escrever direito. Hiran escutava as histórias antes de compor as linhas. Talvez por isso tudo saía tão bonito.
Havia quem dissesse que ele sabia escolher a fonte certa para cada sentimento. Para alegria, letras abertas. Para saudade, letras delicadas. Para anúncio político, letras fortes — embora ele sempre comentasse, meio rindo, meio sério:
— Político muda muito, mas a tinta fica.
Nos fins de tarde, quando a cidade diminuía o ritmo, Mestre Hiran costumava parar a máquina e observar as folhas recém-impressas empilhadas sobre a mesa. Passava a mão sobre elas como quem confere o trabalho de um dia inteiro de vida.
Ali estavam pedaços da cidade.
O nascimento de um filho anunciado em um cartão azul. A formatura de uma professora orgulhosa. A missa de sétimo dia de um velho conhecido. Tudo passava pela prensa silenciosa da história cotidiana.
Talvez por isso ninguém na cidade dizia apenas “a gráfica”. Diziam “a gráfica de Hiran”, como se o lugar tivesse alma — e talvez tivesse mesmo.
Porque enquanto o mundo corria para telas e mensagens instantâneas, Mestre Hiran Silva continuava acreditando no peso das palavras impressas. Para ele, papel guardava memória, tinta guardava emoção e cada linha alinhada era um pequeno gesto de permanência.
E assim, entre o barulho das máquinas e o perfume da tinta fresca, Mestre Hiran seguia fazendo o que sempre soube fazer melhor:
transformar histórias em papel — e papel em eternidade.
