Pedra da Noite
Emerson Araújo
A noite é posta na mesa,
como um pão escuro repartido
entre o silêncio e a memória.
A noite é a minha pedra angular,
o lugar onde levanto
as paredes invisíveis do que sou.
Minha carne soberba sobre a carne,
não por triunfo,
mas porque aprendeu a resistir
ao peso dos dias
e à ferrugem das horas.
Bebo o vinho das estrelas tardias,
enquanto o mundo recolhe
suas máscaras de sol.
É na sombra que a palavra amadurece,
que o coração desaprende o medo
e veste a nudez do infinito.
Não procuro a aurora.
Ela sempre chega
com seus bolsos cheios de promessas.
Prefiro o instante
em que a noite me escreve,
letra por letra,
na caligrafia secreta do universo.
E quando o último silêncio floresce,
descubro que a mesa permanece posta:
a fome é de sentido,
o pão é o próprio sonho,
e a noite, eterna arquiteta,
continua erguendo em mim
a casa impossível da poesia.
