domingo, 28 de junho de 2026

Poesia Sempre

Pedra da Noite

Emerson Araújo


A noite é posta na mesa,

como um pão escuro repartido

entre o silêncio e a memória.


A noite é a minha pedra angular,

o lugar onde levanto

as paredes invisíveis do que sou.


Minha carne soberba sobre a carne,

não por triunfo,

mas porque aprendeu a resistir

ao peso dos dias

e à ferrugem das horas.


Bebo o vinho das estrelas tardias,

enquanto o mundo recolhe

suas máscaras de sol.


É na sombra que a palavra amadurece,

que o coração desaprende o medo

e veste a nudez do infinito.


Não procuro a aurora.

Ela sempre chega

com seus bolsos cheios de promessas.


Prefiro o instante

em que a noite me escreve,

letra por letra,

na caligrafia secreta do universo.


E quando o último silêncio floresce,

descubro que a mesa permanece posta:

a fome é de sentido,

o pão é o próprio sonho,

e a noite, eterna arquiteta,

continua erguendo em mim

a casa impossível da poesia.