sábado, 12 de setembro de 2026

Tuntum, aqui do Maranhão, reflete ao mundo inteiro

Por Emerson Araújo

Há cidades que cabem nos mapas. Outras, porém, ultrapassam suas próprias fronteiras e passam a morar na memória, no afeto e na palavra. Tuntum é assim. Um pedaço do Maranhão que, entre serras, caminhos, riachos e horizontes, aprendeu a conversar com o mundo sem perder o sotaque de sua gente.

Quem chega a Tuntum talvez veja primeiro suas ruas, suas casas, o movimento cotidiano de homens e mulheres seguindo a vida. Mas quem demora um pouco mais percebe que existe outra cidade por trás da cidade visível. Uma Tuntum feita de lembranças, de histórias contadas nas calçadas, de vozes antigas guardadas nos quintais e de sonhos que atravessam gerações.

Aqui, o sol não nasce apenas no horizonte. Nasce também na coragem de quem acorda cedo e acredita que o amanhã pode ser melhor. O sertão ensina que esperança não é palavra de enfeite: é resistência. É semente lançada à terra mesmo quando as nuvens ainda não anunciaram chuva.

Tuntum tem o cheiro da terra molhada depois das primeiras águas. Tem o canto dos pássaros anunciando manhãs. Tem a conversa demorada entre amigos, o café servido sem cerimônia, a alegria das festas, a fé de seu povo e aquela saudade que somente conhece quem precisou partir.

Porque quem parte leva Tuntum consigo.

Leva um pedaço da infância escondido no bolso. Leva nomes de pessoas, caminhos, sabores, expressões e paisagens. Pode atravessar cidades, estados, países e oceanos, mas haverá sempre uma rua de Tuntum atravessando silenciosamente sua memória.

Talvez seja esse o mistério das pequenas cidades: elas parecem pequenas somente quando vistas de longe.

Dentro de cada habitante existe uma cidade imensa.

Tuntum é feita de trabalhadores, professores, estudantes, agricultores, artistas, comerciantes, servidores, mães, pais, jovens e idosos. Gente comum realizando diariamente a extraordinária tarefa de construir uma comunidade. Cada pessoa acrescenta uma linha à narrativa coletiva desta terra.

E há também a palavra.

A palavra que registra, canta, denuncia, celebra e eterniza. A literatura transforma o chão conhecido em território universal. Quando um poeta escreve sobre sua rua, pode estar falando de todas as ruas. Quando escreve sobre a saudade de sua terra, conversa com qualquer pessoa do planeta que alguma vez tenha sentido falta do lugar onde aprendeu a existir.

É assim que Tuntum deixa de ser apenas geografia.

Torna-se metáfora.

Uma janela aberta do Maranhão para o mundo.

Daqui podemos olhar para muito longe sem abandonar nossas raízes. Podemos dialogar com outras culturas sem esquecer nossas histórias. Podemos participar das grandes transformações do tempo presente mantendo os pés firmes no chão que recebeu os passos daqueles que vieram antes de nós.

O mundo inteiro cabe numa cidade quando uma cidade aprende a sonhar.

E Tuntum sonha.

Sonha na escola onde uma criança descobre as primeiras palavras. Sonha no jovem que imagina novos caminhos. Sonha no trabalhador que retorna para casa depois de mais um dia. Sonha nos artistas que transformam memória em beleza. Sonha nos homens e mulheres que acreditam que cuidar da cidade é também cuidar do futuro.

Por isso, quando olho Tuntum, não vejo apenas um município maranhense. Vejo uma pequena parte do planeta onde a humanidade repete suas perguntas fundamentais: de onde viemos, quem somos e o que desejamos deixar para aqueles que ainda chegarão?

Talvez nossa maior riqueza esteja justamente nessa capacidade de sermos profundamente locais e, ao mesmo tempo, universais.

Somos sertão e horizonte.

Somos memória e futuro.

Somos o Maranhão escrito na paisagem e pronunciado na voz de nossa gente.

E quando Tuntum canta seus afetos, escreve seus poemas, preserva suas histórias e projeta seus sonhos, alguma coisa daqui atravessa fronteiras.

Porque Tuntum, aqui do Maranhão, reflete ao mundo inteiro — e o mundo, imenso e diverso, também encontra um pouco de si quando olha para nós.

Emerson Araújo é Presidente da ATLEA.